| |
Por que vocês não gritam?
Provavelmente é por causa do tempo cinza. Não chega a ser melancólico a ponto de se comparar a Hamlet, mas merece atenção. A minha atenção. Talvez as pessoas simplesmente não devessem sair de casa e tentar co-existir hoje. Não que seja preciso sair de casa para co-existir, mas... Desinteressa. Acordei hoje com vontade de sair da inércia não-criativa que vinha me fazendo companhia. Normalmente não dá certo, falta a tal inspiração. E além de tudo eu não gosto de escrever às cegas, mas a minha outra opção para preencher as horas vagas dessa manhã com cheiro de chá camomila, é fazer nada. Se faz nada? Ou o nada é o não-fazer? Ou é fazer o tudo, só que ao contrário? Eu cansei do “nada” porque eu percebi que existem demasiadas interferências nas minhas tentativas de “nada”. Desde o barulho da brisa que tira as persianas do meu quarto para dançar uma valsa – às vezes até um tango – até o interfone que toca. Não que eu atenda o interfone, deixando-o – ou quem o toca – interferir no meu nada. Mas, ele toca, e essa simples manifestação de me chamar de volta para a vida e convivência, já me aborrece e meu nada se transforma em quase-nada. Não tenho certeza se algum dia conseguirei, com minhas congênitas tendências eremitas, conviver com o resto das coisas. Conviver com tudo. Contudo, viver. Tudo que não se refere ao nada – o meu nada - vêm me mostrando a impossibilidade do meu desejo terno da não-convivência. Se somente ignorar resolvesse, eu e meu nada estaríamos perfeitamente salvos. Mas nada é fácil, difícil sou eu. E enquanto o céu esboça um dia com sol entre nuvens, eu vou acreditando na força que há em fazer nada, que te leva a nada em lugar algum. Já fizeram de tudo e não tem dado certo, então caminhemos contra a corrente. Se não der certo, só vai continuar do mesmo jeito. Só que será um novo erro, um caminho diferente para a infelicidade.
Viu o que é a preguiça?
Escrito por Deia às 10h56
[]
[envie esta mensagem]
[link]
|
|
| |
Quem disse?
Ouvi dizer, desdizer. Mentir, desmentir Voluntária, quando entendido Distração, se involuntariamente Eu falo com certeza
Com a certeza de que vou voltar atrás E quando falo sem certeza sem preocupação O faço, no laço e no traço Apago, escrevo por cima
A folha eu amasso Falo que não falei, para não falar que faço No ato sem tato o contato Entre uma colocação e outra
E falo com certeza É falha a minha clareza Logo escurece Na prece se esquece que aquece
Aquele um ou aquele outro Que ferve a cuca para não ser Precipitado, revezando, rezando a vez do anulado A negação nossa de cada dia
Se encontra entre as brechas De uma contradição e outra O orgulho de não assumir no ato Um rato no prato
Que o seu dizer te contradiz Que o teu dizer se contradiz Se encontra quando diz Chamariz, flor-de-lis, do palhaço o nariz
Escrito por Deia às 13h13
[]
[envie esta mensagem]
[link]
|
|
| |
Confira: tudo que respira, conspira.
Ontem foi um alívio. Há dezoito anos da minha vida, aproximadamente, que eu escuto reclamações de pais, amigos e colégios, só porque eu não tenho a tal da Carteira de Identidade. Que eles têm com isso? Eu sempre senti que eu não deveria cair na lábia desse pessoal que sempre tentou me convercer a sair da indigência. Sempre mesmo. Marginal, morô? Mas a sociedade vinha me pressionando cada vez mais... "Entre no sistema, entreee no sistema", ela clamava, na mesma entonação de "Compre batom, compreee batom". Contudo, sempre me manti firme em minha posição. Começaram então a fazer chantagens. "Ah é? Você não vai aderir? Então você não pode votar!", começaram mal. Foram com o tempo aprendendo, e chegaram ao cúmulo de esfregar na minha cara que eu não poderia sequer tirar minha carteira de motorista. Ora, como se eu quisesse isso sem ter carro! Lembro-me do dia em que conseguiram, enfim, ferir meus sentimentos, alegando que eu não poderia então me inscrever para um curso rápido de cinema, e eu perdi a vaga. Mas, eu prefiro pensar que eu não conseguiria me inscrever a tempo, afinal eu nunca consigo mesmo. Ainda querem saber por que ontem foi um alívio? Imaginem só mais um pouco como eu não me sentia sozinha no mundo, eu odeio quando eu vejo que alguém pensa como eu - sobretudo quando essa pessoa escreve um livro e ganha milhões com isso, com a MINHA idéia ou pensamento -, mas ver que ninguém pensa como eu é tão odiável quanto. É como usar suéter abóbora no inverno, gente. Simplesmente não pode! Curioso para saber como essa angústia ontem foi embora com o sol? Mas, espere. Se ponha no meu lugar só mais um pouco e pense quantas e quantas vezes eu não tive que explicar que não era desleixo ou preguiça, e sim ideologia? E vocês acham mesmo que as pessoas entendem, ou pelo menos tentam entender? Não, queridos. Esse pessoal só se preocupa com a cor ideal para se usar no inverno e com a visita do Papa. Aliás, quero registrar que eu não gosto muito de televisão, mas hoje eu queria dar uma forcinha pra Globo (ah, sim, ela precisa muito mesmo...) e ver Sessão da Tarde, mas parece que o Papa é mais importante do que meu desejo de ver algum filme em que um cachorro fala, um macaco joga futebol americano ou dois irmãos perdidos numa ilha acabam se pegando e procriando no final. Desinteressa. Só queria registrar mesmo. Onde estávamos? Ah, sim, eu ia dizer o motivo pelo qual estou aliviada em não ser uma cidadã de bem. Agora entra a outra parte da história, e tem a ver com meus sentimentos também - como não poderia deixar de ser! Eu sou apaixonada, louca, arrasto um verdadeiro bonde pelo Paulo Leminski. Gente, que bom que é quando a gente encontra alguém assim! Bom, "encontra" no modo figurado né, visto que ele faleceu no ano em que nasci e eu parei com esse negócio de mesa branca - no caso de saudade - e galinhas pretas - no caso de ex-namorado. Sempre me senti ligada ao Paulinho por outra corrente que não a poesia. Ontem, minha gente, eu descobri o que nos ligava. Ontem, finalmente o meu sentimento de estar sozinha na preguiça, desleixo ou ideologia, teve fim. Estava destraída e triste porque o único programa que eu gosto no horário tinha acabado (Recorte Cultural - TVE), quando eu ouvi "... bla bla bla e Paulo Leminski, que morreu sem tirar identidade.". Aquilo foi um cotonete Dolce Gabbana para meus ouvidos, e um retiro espiritual com Dalai Lama para minha alma.
Me critiquem agora, seus cidadãos!
"Moinhos de versos moídos a vento em noite de boemia. Vai vir o dia onde tudo que eu diga seja poesia." Paulo Leminski
Escrito por Deia às 19h00
[]
[envie esta mensagem]
[link]
|
|
| |
Mundo Google
Eis aqui um assunto sobre o qual eu sempre penso, sempre quis falar e agora eu mato essa vontade! Não é incrÃvel como, hoje, só se passa por ignorante quem quer? É sim. Pense bem... Numa das suas conversas via MSN, quando alguém menciona um nome que você não conheça. Jean Claude Van Dame, por exemplo.
Você poderia muito bem esmagar o orgulho e, humildemente dizer "Desculpe a ignorância, mas quem é esse?". Mas, não, meu caro. Você não faz isso. Antes mesmo de dar tempo de pensar em Google, seus dedinhos já estão digitando www.google.com.br, e depois "Quem é Jean Claude Van Dame" e, tão rápido quanto um raio, sua mão direita (salvo no caso de quem é canhoto) se joga para cima do indefeso mouse, a fim de clicar louca e desesperadamente em Buscar.
Ok. Não foi bom dar como exemplo nosso companheiro de filmes de domingo à noite. Até porque, se você não sabe quem é Jean Claude Van Dame, você provavelmente não sabe o que é Google e nem sabe qual das mãos é a direita. Desinteressa.
O fato é que a informação hoje chega tão rápida, que mal conseguimos acompanhar. E outra: ninguém mais vai à Biblioteca Municipal para fazer pesquisas. Temos o mundo dentro do nosso quarto, ocupando menos de um quarto dele. Para ilustrar o texto de hoje, vou contar a história que minha amiga Natália viveu um dia desses e veio me contar.
Ela estava no balcão do Mc Donald´s esperando seu lanche, quando se aproxima um menino de aproximadamente cinco anos de idade. Ao lado dele, se encontrava uma cesta cheia de maçãs e, ao lado desta, uma estufa com tortas de maçã. A cesta, lógico, era decorativa, cheia de maçãs vermelhas, grandes e lindas. O menino então chama a atendente e indaga, olhando seria e friamente nos olhos dela: "Moça, essas maçãs são geneticamente modificadas?"
Hã? Na idade dele eu nem sabia pronunciar "geneticamente"! Não sabia por que não precisava, né. Não tinha nenhuma Barbie Genética, nem tampouco um Ken Agrotóxico. Ora, então não se brinca mais de pique-qualquer-coisa na rua? Trocaram o pique na rua, pelo nick no MSN e ficou tudo certo? Oh, o mundo informatizado cruel! Eu fico imaginando - tendo pena, na verdade - como será a infância do meu filho, quando eu tiver um. Mais calor, com certeza, ele sentirá.
Barbie será coisa de colecionador. Brincadeira de rua, tema de livro nostálgico. Triste. Eles nunca saberão o quanto é bom passar uma tarde correndo pra lá e pra cá.
Não vou nem falar no Ãndice de obesidade.
Mas, o Chaves resiste a tudo isso. IncrÃvel, não?
- Resposta da atendente ao menino esperto: “Você vai ter que perguntar pro gerente...†- Confissão: eu digitei o nome do Jean Claude no Google, para ver como se escrevia corretamente.
Escrito por Deia às 14h57
[]
[envie esta mensagem]
[link]
|
|
| |
Cinzas
Tem domingos em que nos vemos obrigados a fazer do ontem o nosso presente. Por puro saudosismo. Pegamos o melhor que há em nossa memória, e ficamos ausentes do agora que nos rodeia, sem a menor pressa de voltar a si.
O meu problema é que eu tenho memória curta.
Ando pela casa, fecho a janela. Olho a chuva caindo acanhada no asfalto quente, o vapor subindo e tudo sendo em vão. Abro a janela, deixo o vento sacolejar a persiana. Penso em falar, e me lembro que é perda de tempo. Tento escutar, e não me lembro mais de nada. Deito na cama e tento imaginar uma coisa melhor para se pensar, mandar a nostalgia pastar. Tento prestar atenção na televisão, a mais árdua das tentativas de fuga. Penso nos problemas que os outros me contam, só me faz redimensionar os meus. Quando uma coisa existe, pouco importa o tamanho. A existência, em si, é a verdadeira etiqueta que pinica suas costas. Sendo ela grande, te atrapalha. Se for pequena, te atrapalha. Se for bem costurada, você é capaz de estragar a blusa, só para destruí-la. Pouco importa a blusa, o que rodeia. A atmosfera em volta do indesejável. É bem certo que, perfeito, nada será. Mas, cegos seremos.
Muito acontece entre a partida e a saudade. A segunda, na maioria das vezes, vem até antes da primeira. Saudade do que temos? Medo de perdermos.
Amanhã eu não farei mais do meu ontem, meu presente. Porque amanhã antes que eu perceba, o mínimo de luz que entrar pela janela vai avisar que tudo voltou a ser. Andando tudo em ordem, logo chegará outro ontem para me tomar o tempo. Enquanto isso eu faço do meu presente, a fila de espera para o futuro. É só caminho. O relógio agora conta “menos um, menos um...”.
Nunca mais eu reclamo de não ter o que escrever.
Escrito por Deia às 19h15
[]
[envie esta mensagem]
[link]
|
|
| |
Palavras ao Vento
Ainda ontem, meu pai e eu estávamos conversando sobre o futuro da comunicação universal. Ele me disse uma coisa que eu concordo. Ele disse que é só uma questão de tempo até que o mundo inteiro fale uma só língua. Até concordo, mas, será que dispomos desse tempo? Com todo esse desequilíbrio ecológico? Com toda a ambição do homem?... Não sei. Bom, mas não é sobre o aquecimento global que quero falar hoje.
Hoje eu quero falar sobre palavras, assunto que eu adoro, por sinal. Poucas coisas me dão tanto prazer como saber a origem de palavras. Adoro esse assunto. É por isso que gosto tanto dos textos de um cara muito simpático que se chama Max Gehringer. Ele dá palestras sobre vida corporativa e é consultor de empresas, se não me engano. Em todos os textos dele, ele começa com a explicação da origem de alguma palavra. A última que eu li foi sobre "arrogância". Arrogância vem do latim rogare (pedir), com o prefixo ar (para si). Ou seja, uma pessoa arrogante é aquela que quer toda a atenção voltada para ela, quer que tudo seja feito para ela... Verdadeiros egocêntricos, esses arrogantes! E o interessante é que as palavras, com o passar dos anos, perdem seu significado original. Hoje quando chamamos alguém de arrogante, não queremos dizer que essa pessoa é só um mimado, carente de atenção. Não. Arrogante hoje é aquele grosso, seco, frio. Vai ver de tanto negarem atenção aos arrogantes, eles ficaram insuportáveis assim...
Não sei quanto a vocês, mas eu acho isso interessantíssimo! Também num texto dele eu li que o prefixo per significa completo. Ou seja, perfeito: feito por completo.
Continuando com o assunto de significados de palavras, tenho um bom exemplo para dar a vocês. Hoje, é assim: Falante é quem fala; Andante é quem anda; Ouvinte é quem ouve; Tratante é quem não cumpre.
Lá em cima eu falei sobre um possível idioma universal, que só não é tão possível assim por causa dos problemas entre a relação Homem X Natureza. Mas, se tivermos tempo, eu creio que isso aconteça, sim. Hoje vemos que, a nossa língua principalmente, é um misto de tantas outras línguas. Há quem goste. Caetano Veloso gosta de sentir sua língua roçar à língua de Luis de Camões. Hoje, nossa língua anda roçando em tantas línguas, que se olharmos pelo lado pejorativo, fica até erótico.
Originalmente publicado em Dezembro de 2006, no www.xongasebulhufas.blogspot.com
Escrito por Deia às 17h57
[]
[envie esta mensagem]
[link]
|
|
| |
Um nada
Quanto mais notamos nossas dificuldades para fazer determinadas coisas, mais queremos fazê-las.
Uma crise criativa passa sobre minhas idéias. Passa devagar, querendo me amedrontar, me fazer crer que ela não só "passa", mas estaciona. Ora, então eu não tenho controle sobre isso, sequer? Penso que sim. Se eu penso certo, essas nuvens só estão onde estão, porque permitidas foram. O que me leva a crer que eu fui buscar esse bloqueio. Por que? Não sei. Viu como me afeta?
Desejo. Quando os meus dedos praticamente escreviam sozinhos textos sobre tudo que se pode imaginar, me parecia ser tão inesgotável que eu não dei devido valor. Não que eu dê mais valor quando perco, longe de mim. Pelo menos não nesse departamento. Agora, que minhas juntas se assemelham a aço, cresce e floresce em mim uma vontade inenarrável - literalmente, como quase tudo ultimamente - não de escrever, simplismente. Mas, de ter o que escrever. Das idéias jorrando, para dar e vender. Tudo agora não passa de uma descrição do que é o meu não-produzir. Do sentimento de vazio que toma conta das minhas míseras vinte e quatro horas.
Tento, com esforço, me lembrar se há alguma receita para reverter tudo isso. Tento fazer o caminho contrário, tento fazer caminho nenhum. Eu poderia escrever e contar sobre minha distração, por exemplo. Sobre como eu não percebo as coisas à minha volta e, no final das contas, mesmo assim, percebi mais do que eu esperava. Ou eu poderia, ainda, contar sobre essa minha percepção distraída das coisas e das pessoas.
Acúmulo. O que me move e me dá forças para sair desse buraco é pensar que, quando eu me livrar dessa nuvem, jogar fora o guarda-chuva, não pensar em filme e pipoca... Quando eu sair disso, com as juntas lubrificadas de empolgação sincera, aí sim eu terei o que falar, contar. Descrever toda essa contemplação do tempo e da vida morna, que têm sido meus dias. Meus dias quentes.
Escrito por Deia às 18h35
[]
[envie esta mensagem]
[link]
|
|
| |
| |
[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ] |
|
|
|
|